Antidepressivos na fibromialgia
O uso de antidepressivos no tratamento da fibromialgia é bastante comum, mas muitas vezes aparecem dúvidas sobre o seu uso e qual seriam suas ações. Muitos pacientes estranham utilizar antidepressivos, pois não se consideram portadores de depressão. E muitas vezes estão certos, mas apenas parcialmente – muitos pacientes com fibromialgia não estão deprimidos, mas mesmo nestes, os antidepressivos podem ser úteis.
Muito da confusão aparece pelo fato de que alguns médicos ainda consideram a fibromialgia como uma depressão mascarada, e tentam passar essa idéia para o paciente. O uso de medicações depressivas, então, seria o tratamento fundamental da fibromialgia.
Porém, não é isto que acontece. O uso simples de antidepressivos não “cura” a fibromialgia, pois hoje se sabe que a fibromialgia não é simplesmente uma depressão que se manifesta com dor, mas uma síndrome dolorosa crônica na qual a depressão é mais provavelmente uma conseqüência do que uma causa.
Qual seria então o papel das medicações antidepressivos no tratamento da fibromialgia? Um antidepressivo, a amitriptilina, foi a primeira medicação testada formalmente na fibromialgia, ainda nos anos 70, com resultados principalmente no sono e com discreta melhora da dor. Nas doses geralmente usadas na fibromialgia, o seu efeito antidepressivo é bastante pequeno. A amitriptilina faz parte de uma classe de medicações chamadas tricíclicos, que detalharemos em outros editoriais.
A partir da década de 80, novos antidepressivos, como os inibidores de recaptação da serotonina, foram lançados. A fluoxetina é o marco deste tipo de medicação. Inicialmente chamada de “pílula da felicidade”, com o tempo a fluoxetina demonstrou ter a mesma potência dos antidepressivos antigos, porém com uma vantagem – menos efeitos colaterais. Seus efeitos na fibromialgia ainda não estão definidos, mas a sua ação juntamente com a amitriptilina pode oferecer vantagens.
Mais recentemente, novos antidepressivos com capacidade de aumentar os níveis de serotonina e noradrenalina parecem agir tanto na depressão como na dor. O exemplo mais bem estudado é a duloxetina, e seus testes foram feitos em pacientes com fibromialgia, portadores ou não de depressão.
Cada uma das classes destes compostos será analisada com detalhe nos editoriais que se seguirão. Alguns fatos, porém, devem ser ressaltados: antidepressivos são medicações úteis, mas apresentam diversos efeitos colaterais, que devem ser previstos e observados durante o tratamento. Eles não causam dependência física ou psicológica (o que é uma confusão comum), e que os difere dos “calmantes” ou “tarja preta”. Todos são vendidos somente com prescrição médica, com receituário duplo e carbonado. E não existe alteração da personalidade da pessoa com uso dessas medicações, só uma correção da parte do humor que está alterado.
Eduardo S. Paiva
Reumatologista
Chefe do Ambulatório de Fibromialgia do HC-UFPR, Curitiba
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