Medicações opióides: dependência física, tolerância e vício
Continuando esta série de editoriais sobre a analgesia na fibromialgia, agora daremos atenção à classe das medicações opióides, talvez a que gere mais discussão no tratamento da fibromialgia.
Porque a controvérsia? Muitos médicos e pacientes possuem idéias erradas sobre estas medicações, que são derivadas do ópio e por isso trazem grande preocupação sobre dependência e vício. Entre as medicações que estão neste grupo incluem-se os opióides mais fracos, como a codeína e o tramadol, e os chamados opióides fortes, que incluem a morfina, a oxicodona e a metadona.
Existe razão para se temer estas medicações. Na verdade, se forem usadas dentro de um tratamento planejado, raramente causam problemas e podem ser bastante úteis, sempre lembrando que nenhuma medicação é isenta de efeitos colaterais.
Quando se discutem estas medicações, o medo sempre é do “vício”, mas isto na verdade se deve à confusão criada por três situações que são bastante diferentes entre si.
A primeira situação é a dependência física, que é o fato de poder haver uma síndrome de abstinência se o opióide é retirado rapidamente. Todas estas medicações podem causar isso, e não chega a ser um problema desde que a medicação seja retirada lentamente, quando for o caso. Isto não é vício!.
A segunda confusão é com a tolerância, ou seja , a necessidade de se progressivamente aumentar a dose da medicação para conseguir o mesmo efeito. Isso raramente acontece com opióides, pois a própria presença da dor bloqueia este efeito. Pacientes com dor crônica tendem a ficar com a mesma dose da medicação por muito tempo. Então, tolerância também não é vício!
O vício acontece quando existe no paciente um comportamento aberrante para conseguir a medicação, visando não o efeito analgésico, mas outras sensações que ela pode oferecer. O paciente manipula o sistema, dizendo que perdeu a receita, ou tenta obter a medicação com médicos diferentes, ou comprar a droga no mercado paralelo. Isto ocorre raramente com opióides, conforme já verificado em diversos estudos clínicos.
Desta maneira, sabendo-se a diferença entre estas três condições, o médico e o paciente podem contar com uma ajuda importante, que se bem utilizada, pode trazer conforto para o paciente e permitir um melhor aproveitamento da parte de exercícios, o que é fundamental.
Eduardo S. Paiva
Reumatologista
Chefe do Ambulatório de Fibromialgia do HC-UFPR, Curitiba
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